As bruxas e as mulheres contemporâneas

A imagem da bruxa tradicional, montada em sua vassoura ou diante de seu caldeirão onde cozinha sapos povoa o imaginário de todas nós. Ela é sempre uma mulher má, velha e feia, corcunda e com verruga na ponta do nariz.

A bruxa, definida como mulher que conhece os segredos e magias da natureza existe provavelmente desde os tempos das cavernas. Seu objetivo é conquistar um poder de transformação sobre as coisas do mundo, sobre os outros e sobre si mesma. Bruxa seria então, uma mulher de poder.

No decorrer dos milênios, essas mulheres de poder quase sempre desempenharam livremente o seu papel, eram respeitadas e admiradas. Eram curandeiras, parteiras, sábias no uso medicinal e conhecedoras dos mistérios da natureza, da vida e muito mais.

O poder patriarcal identificou nessas mulheres um perigo, uma ameaça, e reagiu. Como poderiam aqueles homens admitir a existência de mulheres livres e mais poderosas do que eles próprios? A ordem foi acabar com essas mulheres.

A liberdade que ostentavam era uma ameaça à estabilidade social. Alguns séculos de terror permitiram a construção de uma nova ordem patriarcal, ainda mais opressora em relação às mulheres, verdadeira política de controle de seus corpos, que impôs um modelo de comportamento feminino pautado em recato, obediência e silenciamento.

Diante disso podemos fazer algumas analogias com nós, mulheres da atualidade.

É fácil perceber que a degradação da imagem da mulher na sociedade daquela época tem reflexos até hoje. Mesmo com o abandono do mito da feiticeira, as mulheres permaneceram associadas à idéia de criaturas perigosas, descontroladas, interesseiras, vingativas e promíscuas, noção que repercute, por exemplo, na falta de credibilidade de sua palavra. Não por outra razão, são as mulheres as mais questionadas e recebidas com desconfiança quando relatam terem sido vítimas de violência física, psicológica, patrimonial, moral e principalmente, sexual.

Nada mais atual, porque a desconfiança que recai sobre a palavra da mulher vítima de violência sexual e de relações abusivas, soma-se a imposição de que ela teria desobedecido a padrões de recato, prova disso são os questionamentos sobre seu comportamento, sua roupa, seu consumo de álcool ou o fato de estar sozinha em determinado local.

Portanto, são as representações construídas sobre as mulheres desde a era das bruxas que estão orientando a forma como elas são vistas ainda hoje.

O mito atual é o da mulher empoderada, temida por sua liberdade, seu conhecimento e seus desejos de emancipação.

Nesse ponto, não podemos aceitar o legado de desconfiança, que impõe e descredibiliza nossa palavra, pelo simples fato de sermos mulheres. Caso contrário, mesmo com o avanço na conquista de nossos direitos, o tratamento a nós reservado continuará sendo tão desumano e degradante quanto o da Idade Média. 

Cabe a cada uma de nós, de posse do entendimento do nosso valor e dos nossos direitos, continuar a lutar contra qualquer tipo de cerceamento e “Inquisição” que tentam calar a nossa voz e nos “queimar” em fogueiras de opressão, descredito e desvalor. 

Fátima Aquino

Fátima Aquino

Fátima Aquino - Psicóloga Clínica - CRP 04/45482, Pós graduação em Psicanálise e em Terapia Familiar

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