Por Carolina David
Você tem um evento importante e a primeira coisa que pensa é: não tenho o que vestir! Sente uma dose automática de ansiedade: é preciso buscar o traje perfeito.
Olhar lojas, provar modelos, comprar via e-commerce, garantir que chegue na data especial. A situação parece mais difícil quando temos que pensar na impressão, na mensagem não-verbal que a roupa transmite. Se se vestir é comunicar, precisamos pensar no que dizer, como dizer.
Para a maioria, o objetivo da roupa perfeita é que esta seja, além de adequada, marcante. Tenha certa presença, receba a dose equilibrada de atenção. Depois desta saga, a missão é cumprida, o evento passa… e a roupa nova? Passa a habitar o guarda-roupa.
O problema é que a tal roupa que deveria ser marcante cumpriu com seu papel: ficou marcante demais. Toda vez que você se depara com ela, lembra do evento. E se você se lembra, significa que todos irão lembrar também. A pobre peça demora a ser usada novamente. E quando aparece outro momento oportuno, a busca pelo traje ideal começa novamente.
De onde vem o medo de repetir a roupa? Quem definiu que reutilizar uma peça representa falta de originalidade, de estilo? Por mais absurdo que pareça, o responsável tem nome e sobrenome: este hábito nasceu por culpa de Napoleão Bonaparte.
Foi durante seu governo (1804-1815) que o imperador francês proibiu as damas de sua corte de repetirem o look. Mas a medida nada teve a ver com o gosto pela novidade: foi uma iniciativa comercial para proteger e desenvolver a indústria têxtil da França, obrigando a corte a consumir quantidades absurdas de tecido.
A ideia foi tão poderosa que em pleno século XXI, no Brasil, tantas pessoas (principalmente as mulheres) ainda sentem a obrigação – e não o desejo – de comprar uma roupa nova.
Este hábito, que não é benéfico nem para as economias pessoais e nem para o meio ambiente, nos impede de obter algo tão importante: a memória afetiva com o vestuário. Não permitimos apego à roupa. Por mais que o evento utilizado tenha sido especial, ela sempre será a roupa do evento e não do usuário. A sensação boa de pertencimento que temos com as peças que vestimos acabam se restringindo às peças do cotidiano, vencidas por tanto tempo de uso.
E sem a sensação de carinho e apego, dificilmente gastamos tempo e dedicação na conservação deste traje. O mínimo defeito é sinal de repasse – seja por descarte, venda ou doação. Não há problema com estas alternativas, mas se investimos tanta energia buscando o look perfeito, por que não investimos a mesma energia para preservá-lo?
E vale ressaltar: repetir roupa não é repetir o look. Ambos são permitidos, mas não são equivalentes. Uma mesma peça pode estar em diversas combinações.
Explorar as possibilidades do que já existe em seu armário é uma janela para abusar da criatividade.
O vestuário faz parte da construção de nossa identidade. Com base nisso, qual o problema de utilizá-lo mais do que uma vez? Qual o problema da roupa cumprir com o seu papel de identificação? A roupa que permanece no guarda-roupa é resultado de uma boa compra, guiada pelo autoconhecimento e não pela diretriz da tendência, tão efêmera.
E se mesmo assim você, leitora, ficar receosa na hora de optar por uma peça que já foi estreada, com medo de que ela tenha sido representativa demais de uma determinada situação, lembre-se: a roupa não é mais marcante que a pessoa que a traja. Se ela não se sobrepõe, ela complementa a sua personalidade – e é isso que garante que ela seja tão especial.
























