LIPEDEMA: MUITO ALÉM DE PERNAS GROSSAS

Por Camila Naif – Cirurgiã Plástica

O lipedema é uma doença caracterizada por um acúmulo de gordura simétrico em membros e desproporcional a outras áreas do corpo, de difícil resposta a tratamentos convencionais para emagrecimento. É mais frequente nas pernas, coxas e quadris, podendo acometer braços e antebraços. Trata-se de uma doença inflamatória, crônica, com piora durante oscilações hormonais e que acomete não somente o tecido gorduroso como todos os tecidos e estruturas onde ele se encontra, desde a fáscia muscular até a pele. Costuma se manifestar nos marcos hormonais femininos como na menarca, na gravidez, na menopausa, geralmente se agravando em situações de inflamação ou ganho de peso. Acomete mais de 11% das mulheres e é raríssimo em homens.

Descrito em 1940 como uma obesidade de membros inferiores associada a um edema ortostático que poupa mãos e pés, o lipedema vem sido estudado mais a fundo nos últimos 10 anos trazendo cada vez mais entendimento sobre seu mecanismo. Apesar de ter muito a se descobrir, hoje se sabe que apesar do impacto negativo da obesidade na doença, o lipedema não tem relação direta com a mesma, acometendo também mulheres magras. Porém, é importante saber que os estágios mais avançados se apresentam em pacientes obesas ou ex-obesas.

Os sintomas mais comuns do lipedema além do acúmulo desproporcional do tecido adiposo nos membros são a dor, sensação de peso, hematomas frequentes sem trauma associado e inchaço. Mas é importante salientar que pacientes com graus iniciais podem apresentar-se assintomáticas apenas com queixas estéticas. Os graus mais avançados podem acometer articulações trazendo transtornos de mobilidade e lesões irreversíveis, assim como linfedema, comumente confundido com a doença devido a semelhança do nome, que acomete o sistema linfático pela inflamação e fibrose dos tecidos, gerando edema verdadeiro.

Existe uma classificação do Lipedema em relação a gravidade (estágios) e a localização (tipos):

Estágio 1 – pele lisa sobre tecido nodular fibrótico

Estágio 2 – ondulações ou padrão de “colchão” da pele sobre nódulos fibróticos maiores

Estágio 3 – lóbulos de tecido, lipedema nodular fibrótico, deformidades em quadris tipo “bolsas”

Estagio 4 – linfedema associado causado pelo lipedema

Tipo 1 – acomete o quadril

Tipo 2 – acomete o quadril + coxas

Tipo 3 – acomete o quadril + coxas + pernas

Tipo 4 – acomete braços

Tipo 5 – acomete apenas pernas

O tratamento da doença envolve uma abordagem multidisciplinar tendo como foco uma alimentação antiinflamatória, adequação de atividades físicas e fisioterapia que visam a melhora do fluxo linfático e controle do edema,redução da dor/desconforto atuando no tecido profundo para reduzir a fibrose. O tratamento cirúrgico, através da lipoaspiração, é recomendado para casos refratários de acordo com os guidelines, mas diante de uma doença crônica, temos visto que a abordagem precoce cirúrgica em vigência do tratamento clínico adequado e mais complexo do que o consensual, pode ser indicada dependendo das queixas eexpectativas de resultado das pacientes. E na minha experiência como cirurgiã e portadora de lipedema, alguns resultados só conseguimos atingir com associação do tratamento cirúrgico, assim como resultados mais duradouros.

Com o “boom” social diante de personalidades famosas expondo na mídia seus diagnósticos, o Lipedema vem ganhando visibilidade e curiosidade permitindo portadoras a questionarem-se sobre a doença e irem em busca de tratamento, o que é de grande importância pois o diagnóstico precoce e inicio dos cuidados é o ideal para controlar os sintomas e evitar a progressão da doença. É o que permite a manutenção da uma boa qualidade de vida e diminuição dos riscos de impactos físicos irreversíveis e mais graves, além do impacto psicológico e social.

Revista Revolution

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