Geovana Clea – Entre Dois Mundos, a Terra e a Luz

Nascida em Inhapi, no sertão de Alagoas — terra de nome indígena Koiupanká que significa “água sobre pedra” — Geovana Clea cresceu cercada pela vastidão da Caatinga, pelo chão rachado e pelas águas do Rio São Francisco. Desde menina, aprendeu a ouvir o silêncio da natureza, a ler nas rachaduras da terra as histórias que o tempo não apaga. Essas memórias se tornariam, mais tarde, a matéria e a alma de sua obra.

Aos 18 anos, atravessou o Atlântico rumo à Itália, onde viveu em Florença, estudando História da Arte e língua italiana. A experiência abriu novos horizontes, mas não apagou as raízes. Aos 19 anos, de forma autodidata, começou a pintar — explorando texturas, elementos naturais e a profunda conexão entre o homem e a paisagem. Sua pesquisa visual era contínua, movida por experimentação e pela busca de uma identidade própria.

Ao longo de sua carreira, expôs em instituições e eventos de renome internacional, como a 54ª Biennale di Venezia, o Palazzo Reale de Milão, o Salon SNBA de Paris — onde recebeu o Prêmio do Júri — e em galerias de cidades como Lisboa, Nova Iorque, Basileia, Milão e Trancoso. Colaborou com marcas icônicas do luxo italiano, entre elas Visionnaire, Annibale Colombo e Giorgio Collection, levando sua arte para colecionadores privados ao redor do mundo.

Um marco em sua trajetória foi a exposição de 2014 na Wunderkammer, dentro do espaço Visionnaire de Milão — a primeira grande mostra de obras criadas com cristais Swarovski especialmente produzidos para ela, minúsculos como grãos de areia. Esses cristais, inseridos com precisão e delicadeza, não eram ornamentos, mas símbolos de natureza: pedras de rio, reflexos de luz na água, centelhas que celebram a vida e alertam sobre a urgência de preservá-la.

Mas foi no reencontro com suas origens que Geovana encontrou a plenitude de sua linguagem. Durante a preparação da mostra Inha-Pi – Água sobre Pedra, no Castelo di Rivalta, descobriu no Rio Trebbia, na Itália, um barro seco e quebrado que lhe trouxe à memória o sertão distante. Com ele, criou a obra Portal entre Dois Mundos, ligando simbolicamente a Itália ao Brasil, a mulher madura que voltou à terra natal à menina que um dia partiu.

Dessa experiência nasceu a série Sertões, realizada com barros naturais recolhidos no sertão alagoano — alguns de origem sagrada indígena — e, em certos trabalhos, unidos aos cristais Swarovski. Cada fissura na superfície dessas obras carrega uma história, o nome de alguém que marcou sua vida. Para a artista, o chão rachado é mais que um elemento estético: é memória, resistência e identidade. É o testemunho silencioso de um povo e de uma paisagem que desafiam o tempo.

Geovana é uma artista de presença discreta, mais inclinada ao silêncio do ateliê do que às luzes do espetáculo. Sua obra é fruto de contemplação, afeto e respeito pela natureza. Madrinha por duas vezes dos Jogos Olímpicos Indígenas, mantém um vínculo profundo com os povos Koiupanká, levando para o mundo fragmentos da terra que a viu nascer e transformando-os em arte que emociona e provoca reflexão.

Hoje, seu trabalho habita museus, coleções e casas de diferentes continentes, mas sua essência permanece intacta: uma mulher que encontrou na arte o caminho para unir dois mundos — o da sofisticação internacional e o da simplicidade ancestral. Nas suas mãos, barro e cristal se encontram para contar histórias de luz, terra e água. Histórias que nascem no sertão, mas pertencem ao mundo.

Revista Revolution

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