Luiza, você construiu uma das maiores histórias do varejo brasileiro. Qual foi o momento decisivo em que você percebeu que estava destinada a algo muito maior do que somente administrar a empresa?
Sempre fomos uma família voltada para o trabalho, nunca a ser a maior, ou a ficar comparando outros para crescimento, mas, fizemos nosso trabalho dia a dia e o crescimento foi algo natural, sempre nos estruturando para isso e cuidando para não perdermos nossa essência. Além disso sempre trabalhei de forma intensa além da empresa, em entidades, ongs e associações, e, com o Grupo Mulheres do Brasil, criado em 2014 e que hoje conta com mais de 135 mil mulheres, procurei dar minha contribuição para criar políticas públicas que possam melhorar a desigualdade social no Brasil.
O Magazine Luiza nasceu de uma mulher empreendedora, sua tia. Qual a importância de valorizar essa herança feminina e como você acredita que as mulheres podem honrar e expandir seus próprios legados?
Minha tia Luiza foi pioneira, visionária e corajosa, ela sempre teve esse espírito empreendedor. Ela abriu caminho em um tempo em que mulheres não eram incentivadas a empreender. Valorizar essa herança é honrar todas as mulheres que vieram antes de nós. E expandir esse legado é ter consciência de que o que fazemos hoje precisa inspirar as próximas gerações. Cada mulher que ocupa espaço de liderança abre portas para outras. É assim que construímos um círculo virtuoso.
Quais foram os momentos mais desafiadores da sua jornada e como você se manteve firme, sem desistir, mesmo quando tudo parecia difícil?
Passei por várias crises, desde a inflação alta, planos econômicos, concorrência acirrada, a transformação digital, a pandemia. O que me manteve firme foi acreditar profundamente no Brasil, nas pessoas e na força do trabalho em equipe. Sempre digo que não adianta reclamar de governo ou de crise: temos que agir. Essa crença em agir coletivamente me deu energia para não desistir.
Você é reconhecida pelo estilo de liderança próximo, humano e inspirador, sempre valorizando o cliente e o funcionário. Qual é o segredo para liderar com firmeza e, ao mesmo tempo, com tanto afeto?
O segredo é simples: tratar os outros como eu gostaria de ser tratada. Esse é o lema que está no crachá de todos os nossos colaboradores. Liderar com firmeza não significa ser autoritária, mas ter clareza de propósito e coerência entre discurso e prática. O afeto não enfraquece a liderança, pelo contrário, fortalece. Pessoas motivadas e respeitadas dão o melhor de si.
O que significa para você, hoje, ser uma mulher que influencia não só no mundo dos negócios, mas também no social e no político, através de iniciativas como o Grupo Mulheres do Brasil?
Significa responsabilidade. O Grupo Mulheres do Brasil nasceu para atuar em causas que vão muito além de nós mesmas: educação, saúde, combate à violência, igualdade racial, inclusão social. Eu acredito que a sociedade civil organizada tem poder de transformação. E quando mulheres se unem pensando no coletivo, conseguimos avançar muito.
Mulher, mãe, empresária, líder social… Como você equilibra tantos papéis sem perder sua essência pessoal?
Não existe fórmula mágica. Eu me organizo, delego muitas tarefas e também fico inteira a cada um dos momentos, isso ajuda a focar. Também nunca abri mão da minha essência: continuo sendo a mesma Luiza que gosta de estar perto das pessoas, ouvir e aprender. Isso me equilibra.
Na sua visão, qual é o maior obstáculo que ainda impede as mulheres brasileiras de ocuparem espaços de liderança?
O maior obstáculo é cultural. Vivemos em uma sociedade que ainda associa liderança ao masculino e que coloca muitas barreiras para a mulher. Falta oportunidade, falta apoio, e sobra preconceito. Por isso, precisamos trabalhar pela equidade: dar condições iguais para que mulheres e homens possam concorrer em pé de igualdade. Isso vale para política, para empresas e para todos os setores. Conseguimos um marco recente dessa luta, com a aprovação da lei de equidade em conselhos de administração em empresas públicas, que, certamente irá influenciar também nas empresas privadas.
O Grupo Mulheres do Brasil vem impactando milhares de vidas. O que você aprendeu com essa experiência coletiva que talvez nunca teria aprendido apenas no mundo corporativo?
Aprendi a força do voluntariado e da colaboração. No mundo corporativo, falamos muito de resultado, de metas. No Grupo Mulheres do Brasil, aprendi que quando nos unimos sem esperar nada em troca, apenas pelo bem comum, o impacto é ainda maior. Vi mulheres simples e extraordinárias transformarem comunidades inteiras. Isso é inspirador.
O Magazine Luiza é conhecido pela inovação, vocês foram muito rápidos em ajudar pequenas empresas a digitalizarem com a criação do marketplace. Qual conselho você daria para mulheres que desejam inovar, mas ainda não têm todos os recursos que gostariam?
Inovação não é só tecnologia. É olhar para um problema e buscar uma solução diferente. Meu conselho é: comece com o que você tem. Não espere ter tudo perfeito para dar o primeiro passo. Muitas vezes, a limitação de recursos é o que estimula a criatividade. E, principalmente, não tenha medo de errar, pois o erro faz parte do processo.
Se você pudesse deixar apenas uma mensagem para as mulheres que hoje leem a Revolution, qual seria a frase ou ensinamento que gostaria que ficasse gravado no coração delas?
Eu diria: “Acredite em você e nunca pare de sonhar grande. O mundo precisa da sua força, do seu talento e da sua coragem.”
Qual foi a decisão que você tomou ao longo da sua trajetória que mudou tudo e que, olhando para trás, você reconhece como um divisor de águas?
Eu não vejo uma única atitude como divisora de águas, mas sim, um conjunto de decisões que são necessários no dia a dia, ainda mais no varejo, onde é necessário redirecionar planejamentos e estratégias a todo momento.
O que você diria hoje para aquela mulher que está se sentindo sobrecarregada, desacreditada ou com medo de sonhar alto demais?
Que respire fundo, olhe para trás e veja o quanto já conquistou. Às vezes, esquecemos da nossa própria força. Ninguém realiza nada sozinho, então busque apoio, converse, peça ajuda. E nunca acredite que seu sonho é grande demais. O impossível só existe até alguém ir lá e fazer.























