Taxação de Trump: quando o imposto vira ato político

Não é todo dia que uma tarifa comercial vira manchete internacional — e menos comum ainda é ver um tributo se transformar numa carta de advertência diplomática.

Mas é exatamente isso que aconteceu esse mês, quando o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a taxação adicional de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados para os EUA a partir de 1º de agosto.

E, ao contrário do que alguns possam imaginar, a decisão não é sobre economia. É sobre política, poder e pressão.

A justificativa oficial veio em forma de uma carta enviada diretamente ao presidente Lula. Trump afirmou que o Brasil estaria perseguindo injustamente o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente réu no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado.

Chamou o processo de “caça às bruxas” e declarou que não aceitaria ver um “líder altamente respeitado” sendo tratado com o que classificou como desonra internacional.

E foi além: criticou as decisões do STF, especialmente aquelas tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes, que envolvem ordens de retirada de conteúdo antidemocrático de redes sociais — classificando as como censura contra empresas norte-americanas.

O Brasil é o segundo maior parceiro comercial dos Estados Unidos, atrás apenas da China. E, nos últimos dez anos, os EUA tiveram superávit de mais de 40 bilhões de dólares na relação bilateral.

Ou seja, não há base econômica clara para a medida. É um movimento inteiramente político, que transforma a política interna brasileira em palco de disputas geopolíticas globais.

A resposta do presidente Lula foi protocolar. Convocou reunião com ministros e publicou declaração oficial reforçando a soberania do país e a independência das instituições brasileiras.

Destacou que o processo judicial em curso contra o ex-presidente Jair Bolsonaro está sob competência exclusiva do Judiciário nacional e afirmou que qualquer medida unilateral será analisada à luz da Lei de Reciprocidade Econômica, em vigor desde abril.

O governo brasileiro também acionou os canais diplomáticos, convocando o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos para prestar esclarecimentos formais sobre o conteúdo da carta.

E o que tudo isso nos ensina?

Ensina, primeiro, que tarifas também podem ser armas. Políticas. Que nem sempre os impostos nascem de planilhas — às vezes, nascem de ideologias.

Ensina, também, que a política não se limita às fronteiras. O que se decide no Supremo Tribunal Federal do Brasil pode ecoar na Casa Branca — e o que se decide em Washington pode interferir no preço da nossa carne, no nosso café e nas nossas exportações.

Ensina, por fim, que a liberdade — essa palavra tão nobre quanto disputada — corre o risco de virar moeda de troca quando deixa de ser princípio e passa a ser argumento.

E que, no jogo do poder, até mesmo os discursos em defesa da liberdade individual podem ser instrumentalizados para fins geopolíticos.

E aí, no meio do tiroteio tarifário e das declarações inflamadas, ficamos nós — brasileiros, consumidores, eleitores — tentando entender se o preço da laranja subiu por causa do clima ou porque alguém, lá longe, resolveu defender um aliado (rs).

No fim, o imposto é do Trump, o café é nosso, e a conta, como sempre, chega pra quem não mandou carta nenhuma.

Um beijo com liberdade e até a próxima!
Juliana Markendorf Noda

Juliana Markendorf

Juliana Markendorf

Juliana Markendorf Noda. Advogada e Professora. Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Pós-graduada em Sociologia Política pela Universidade Federal do Paraná. Membro da Comissão de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Paraná. Membro da Comissão de Direito Digital e Proteção de Dados da Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Paraná. Membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político. Presidente do Instituto de Formação de Líderes de Curitiba.

Posts Relacionados

Ano Novo e um Maternar Leve

Muito se fala sobre o ano novo: promessas, esperanças, se devemos comemorar ou não, e a pensamento de renovação que

ORIGEM DAS TRADIÇÕES DE ANO NOVO

Independentemente de onde iremos passar a virada de ano, certo é que esta será repleta de “rituais”. Por toda parte

Teste da notícia: descubra se aprendeu!

Vamos fazer uma brincadeira? Será que, algumas colunas depois da nossa conversa inicial, aprendemos a ler as notícias políticas? Pra

À Mesa com a Revolution

Sabores que contam histórias. São Paulo nunca deixa de surpreender e, entre as esquinas que misturam cultura, arte e gastronomia,

Cada Pele conte uma História

Cada Pele Conta uma História: um filme sobre propósito, beleza e transformação emociona o público em estreia no cinema Na

Hipnose em pacientes oncológicos

Por Adriane Garcia especialista em Hipnose – @adrianegracia.terapia Pacientes com câncer enfrentam não só os efeitos da doença em si,