Existe algo profundamente humano no desejo.
Desejamos aquilo que não temos, aquilo que acreditamos que nos trará sentido, preenchimento, status ou felicidade.
O desejo, como já dizia Schopenhauer, é o motor da existência, uma força incessante que nos impulsiona, mas que também nos condena a uma eterna insatisfação. Mal conquistamos o objeto do desejo e ele já não nos basta. Surge o tédio. A posse esvazia o encanto.
E assim vamos caminhando, equilibrando a vida entre o desejo de ter e no tédio de possuir.
Na clínica, essa dinâmica aparece frequentemente: pessoas que lutaram por uma carreira, um relacionamento, uma conquista material e que, ao alcançá-los, se veem tomadas por uma sensação de vazio, de desorientação. “Era isso?”, se perguntam.
A filosofia nos ajuda a compreender esse paradoxo. Epicuro, por exemplo, já alertava para a distinção entre desejos naturais e necessários, e desejos vãos.
Se prestarmos atenção podemos perceber que a maioria dos nossos desejos, especialmente os moldados pelo consumo e pela comparação social, são fabricados, prometem prazer, mas entregam frustração. São eles que nos mantêm num ciclo de busca incessante, mas sem direção existencial. São eles que geram a grande parte das nossas ansiedades.
Na psicanálise, o desejo é entendido não como algo que se satisfaz plenamente, mas como algo que estrutura o sujeito. Lacan nos lembra que o desejo é o desejo do Outro.
Desejamos ser desejados, aceitos, reconhecidos. E por trás de cada objeto de desejo há um apelo mais profundo, o de sermos amados, de pertencermos, de termos um lugar no mundo e também no mundo de alguém.
O problema é que confundimos o valor das coisas com o valor da vida. Acreditamos que a posse trará sentido, mas o sentido raramente está naquilo que acumulamos.
Está nos vínculos, na experiência, na consciência de estarmos presentes no agora. O tédio que segue a posse é um sinal de que não é o objeto que nos faltava, mas um encontro mais profundo com o que realmente importa.
Essa reflexão nos convida a rever nossas prioridades:
O que temos desejado?
O que estamos colocando no centro da nossa existência?
O que estamos sacrificando em nome de conquistas que, no fundo, não conversam com o que somos?
O que realmente importa?
Talvez a vida peça menos acúmulo e mais presença, menos idealizações e mais verdade. Menos corrida e mais pausa. Porque, no fim, não se trata apenas do que temos, mas de quem nos tornamos enquanto desejamos. E, principalmente, do que cultivamos em nós quando o desejo cede espaço à reflexão e o tédio, à consciência.
Com carinho!
Fátima Aquino
Psicóloga Clínica
























