Relacionamento Tóxico X Relacionamento Abusivo

Relacionamentos amorosos são sempre desafiadores. São duas pessoas diferentes, com histórias e históricos diferentes, com uma visão de mundo particular, vindos de famílias com tradições e costumes, na maioria das vezes, também muito diferentes.


Se relacionar é algo que toda pessoa precisa e anseia, afinal somos seres relacionais e nascemos com essa predisposição para a relação.


Quando falamos em relacionamento amoroso, é importante entender as dinâmicas presentes nas relações, que de modo geral, se encaixam em uma dessas 4 dinâmicas: funcional, disfuncional, tóxica ou abusiva.


É claro que toda relação tem problemas a serem resolvidos, situações a serem ponderadas e pontos que precisam de ajuste, mas isso é comum, natural e faz parte do processo, mas existem dinâmicas relacionais que são extremamente prejudiciais e até perigosas e é sobre isso que vamos nos atentar agora.
Nesse artigo quero considerar dois tipos de relação, o relacionamento tóxico e o relacionamento abusivo, suas dinâmicas e suas principais características.


Quero iniciar dizendo que essas duas dinâmicas, se não forem bem observadas e bem compreendidas, podem se confundir e até parecerem a mesma coisa, mas não são.


As relações tóxicas são bastante confundidas com as relações abusivas mas elas apresentam uma dinâmica diferente. A maior diferença é que nas relações tóxicas não existe o desequilíbrio de poder que vemos nas relações abusivas.


Nas relações tóxicas podem aparecer os constrangimentos, as brigas, os chingamentos e até violência doméstica, porém as agressões são recíprocas, e não há a existência de manipulação constante e intencional.


O casal não se encaixa, não se entende e existe uma reciprocidade destrutiva, ou seja, eles se agridem moralmente, verbalmente e podem inclusive chegarem a agressão física mútua. Esses comportamentos acabam por extrair o que o outro tem de pior.


É comum ver um quebrando o celular do outro, arranhando o carro, rasgando algo de valor ou de estima do outro, expondo e envergonhando o parceiro, mas sempre há o revide, onde o que foi agredido de alguma forma, toma a atitude de também agredir, trazendo ainda mais toxidade para a relação.
Na relação tóxica não há respeito e o estado emocional dos dois, ao longo da permanência na relação, fica bastante prejudicado, eles se sentem angustiados, irritados, irados, desafiados e podem apresentar também episódios de depressão e de ansiedade. Porém, quando o relacionamento termina, apesar dos dois estarem bastante prejudicados, tendem a melhorar sem grandes seqüelas emocionais, diferente do que acontece nos relacionamentos abusivos.


Aí fica a pergunta: Vale a pena continuar numa relação tóxica?


Claro que cada caso é um caso, geralmente os dois tem uma personalidade difícil, sendo importante avaliar se é possível a continuidade dessa relação. Dependendo do nível de adoecimento e de como está o relacionamento, nem sempre é válido continuar ou investir, já que se observa um grande comprometimento na saúde e no bem estar de cada um, podendo desenvolver até mesmo uma dependência emocional.


Outra questão que deve ser observada é o fato de que a adrenalina presente nesse tipo de relação ás vezes se torna viciante, tornando quase imperceptível ao casal o quanto eles se fazem mal, pois já se acostumaram a essa emoção e a essa toxidade. Dependendo do grau de toxidade e de adoecimento pode haver melhora e o casal conseguir permanecer junto, mas isso precisa ser avaliado com bastante critério.


Eles precisam se cuidar individualmente, se possível buscando ajuda profissional.

Em se tratando de um relacionamento abusivo a manipulação é o fator primordial e como principal característica há o desequilíbrio de poder, onde a “balança” não oscila e sempre há um que manipula e o outro que é manipulado, diferente do que acontece nas relações tóxica, onde os dois são tóxicos.
Existe o poder de uma pessoa sobre a outra, ou seja, há um desequilíbrio de poder e domínio, onde a mulher se submete a vontade do seu companheiro, e vai se tornando insegura, com dificuldades de tomar decisões e com baixa autoestima.


Em todo relacionamento abusivo temos a presença de violência doméstica, porém nem sempre acontece a violência física.


Existem graus diferentes de violência nesse tipo de dinâmica mas a violência psicológica é a que a vitima demora mais tempo para se recuperar, pois deixa danos emocionais profundos e duradouros, muitos traumas e problemas com a autoestima.


É importante saber que um abusador é uma pessoa abusiva mesmo antes de entrar na relação amorosa. Ele pode ser um abusador nato ou circunstancial.


Os abusadores circunstanciais foram desenvolvidos em um ambiente onde aprenderam a abusar e a ter prazer nisso, eles aprenderam com suas figuras de referência, pai, mãe, irmãos mais velhos, entre outros, que essa é a forma de se relacionar.


Já o abusador nato é considerado narcisista, ou seja, apresentam um transtorno de personalidade. Uma das características desse perfil é que são extremamente simpáticos, sedutores, intensos e tem uma lábia sensacional, o que leva sua vítima a se apaixonar e se apegar rapidamente. O inicio da relação com um abusador narcisista é sempre muito intenso e apaixonante. Ele conquista não só a vítima mas seu entorno, como familiares e amigos, se passando pela pessoa “quase perfeita”. É uma pessoa fria e calculista, sabendo exatamente onde quer chegar naquela relação e usado todas as oportunidades para isso.


Com o passar do tempo, ele começa com a mudança, sempre trazendo para a vítima o peso de que ela é quem causa problemas desnecessários e conflitos para a relação, que era ótima.
Insegurança e tensão passam a ser constantes na relação e a vítima, geralmente a mulher, passa a ficar “pisando em ovos” com o parceiro, com medo do que vai fazer ou falar, já que qualquer coisa pode causar problemas e brigas terríveis.


Ela passa a se sentir culpada por tudo o que acontece na relação, a se acha ruim demais e não merecedora de uma pessoa tão especial e incrível como o seu parceiro.
Os danos emocionais começam a se instalar e a vítima começa a duvidar de si mesma, se achando sempre a culpada pelos problemas. Nessa altura ela já é uma vítima manipulada.


O abusador então começa a cerciar suas escolhas e suas decisões, a limitar as áreas de sua vida, a determinar o que ela pode ou não fazer, vestir, comer e onde pode ir. Começa a determinar com quem ela pode falar e o que pode conversar. Afasta e isola a vítima de amigos e familiares como uma forma de enfraquecer e de gerar dependência.


Temos aqui uma mulher totalmente adoecida que não confia mais em si e que se sente totalmente dependente do abusador, já que uma das principais falas é de que ela nunca mais vai arrumar ninguém porque não há quem agüente uma pessoa tão difícil, complicada e sem graça como ela.


Pode ser que ao ler esse texto você se identifique. Pode ser que ao ler esse texto você pense: Como alguém pode cair em uma relação como essa? Como alguém se submete a isso? Mas quero te dizer que isso acontece todos os dias, com mulheres de diferentes classes sociais e intelectuais e qualquer mulher pode entrar em um relacionamento abusivo. Se não prestarmos muita a atenção podemos ser a próxima vítima.


Muitas vezes a mulher não percebe ou entende que está em uma relação abusiva, ela acha que a culpa é dela ou que o companheiro está passando por momentos difíceis e justifica o comportamento dele com essas desculpas. Ela acha que o problema é ela e que é ela quem precisa aprender a se relacionar com o companheiro e a se tornar uma pessoa melhor.


Assim ela se esforça e continua a se esforçar para ser uma mulher melhor para ele, porém isso nunca é o suficiente e ele sempre reclama dela e do seu jeito de ser.
A vítima está sempre subjugada e até quando tenta reagir, a culpa cai no mesmo lugar ou seja, nela. Ela é o problema, sempre.


Mesmo em casos de traição o abusador coloca na vítima a culpa e diz coisas como: “se eu te traí foi por sua culpa”.


A mulher demonstra uma insegurança generalizada e é preciso um trabalho amoroso para tentar conscientizá-la de sua real condição.


Em um relacionamento abusivo não há ajustes e raramente a dinâmica prejudicial muda.
A única saída para que a mulher se recupere e saia de estados de adoecimento é o fim da relação, de preferência com contato zero com o parceiro.


Não há a possibilidade de mudança do abusador, já que esse é seu modus operandi.
É mais fácil para o abusador mudar de vítima do que de conduta, ele não busca ajuda porque ele não quer mudança, já que tem prazer nesse tipo de relação.


Se cuide e esteja atenta!

Com carinho,
Fátima Aquino
Psicóloga Clínica

Fátima Aquino

Fátima Aquino

Fátima Aquino - Psicóloga Clínica - CRP 04/45482, Pós graduação em Psicanálise e em Terapia Familiar

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